Angústia em Lacan, Heidegger e Kierkegaard.



Angústia em Lacan, Heidegger e Kierkegaard
O presente texto tem por objetivo trazer reflexões sobre a temática angústia, tendo como referência grandes estudiosos no assunto como: Lacan, Heidegger e Kierkegaard.
            A angústia é um sentimento que está relacionado com problemas que trazem muitas preocupações, é uma manifestação emocional que perturba e incomoda e normalmente deriva de sentimento de frustração, culpa, insegurança ou ingratidão.
            Angústia e ansiedade são sinônimos. Todos a possuímos. Uns a percebem e outros não. Uns lidam construtivamente com ela, outros destrutivamente. Uns são dominados pela angústia (mesmo quando pensam que não), e outros a dominam.
            Nem todos possuem angústia ou ansiedade alta demais. Estando forte, ela se manifesta na pessoa por um dos “Transtornos de Ansiedade”, como fobia, doença do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, etc., por reações no corpo (doenças psicossomáticas), além de outras manifestações com ou sem doença orgânica junto.
Freud afirma que o eu é também a sede real da angústia, indicando seu caráter de desprazer que é sentido no corpo. Por sua vez, Lacan em suas elaborações sobre o estádio do espelho aponta que a angústia é um momento de quebra da imagem corporal e consequentemente, de perda das referências identificatórias que constituem o sujeito. A partir desses pressupostos, a questão que se apresenta é de estabelecer algumas relações entre o eu, a angústia e a realidade psíquica.
  Atualmente existe uma associação entre a psiquiatria e a indústria farmacêutica que favorecem exclusivamente o capital, como diz Christofer Lane. Segundo ele, primeiro se constrói uma ideia de doença, depois se divulga essa ideia para que os consumidores, decididamente doentes, possam comprar os medicamentos para sanar suas doenças. Tais medicamentos causam efeitos colaterais, que provocam mais doenças e, como consequência maior probabilidade de novas doenças. Convém ressaltar, que a propaganda é um elemento fundamental para o comércio de doenças e medicamentos. Numa sociedade capitalista, que busca defender interesses econômicos acima de tudo, o ser humano perde a importância dando lugar ao poder e ao dinheiro.
Diante do exposto cabe ao indivíduo, o Eu, buscar aprender viver diante da situação de angústia. Tanto em Freud quanto em Lacan, o Eu, é o principal mecanismo de defesa, de resistência diante dos conflitos de angústia. Torna-se importante um amadurecimento do Eu, o qual ao longo do tempo se tornaria mais forte e manteria uma relação mais salutar com o mundo externo. Essa diferenciação entre o Eu e o mundo externo serve à finalidade prática de nos capacitar para a defesa contra sensações de desprazer que sentimos ou que nos ameaçam.
Segundo Martin Heidegger na sua principal obra, Ser E Tempo, interpreta a angústia como uma disposição fundamental que promove uma abertura privilegiada de nossa existência.
Seguidor da teoria aristocrática, Heidegger procurou reorganizar os conceitos fundamentais defendidas por Aristóteles, como o ser, o tempo e a sua existência.
Sob esse viés, investiga o ser enquanto conceito universal e indefinível. O ser está vinculado à existência, ao seu próprio acontecimento. O caminho para o conhecimento do ser, parte do próprio homem, de seus questionamentos e reflexões. Heidegger afirma que o homem é um “ente inacabado” que se reconstrói constantemente. A existência está, portanto, vinculada à temporalidade.
Além do mais, vale ressaltar, duas citações do ser e do tempo. “O angustiar-se abre, de maneira originária e direta, o mundo como mundo” e “Na presença, a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio ou seja, o ser livre para ...a liberdade de escolher e acolher a si mesma.”
Podemos então concluir em Heidegger pensa na angústia como uma disposição privilegiada tanto no sentido ontológico, como via de acesso para uma compreensão de ser, quanto no sentido existencial, por restituir a propriedade de nosso modo se ser.
Finalizando o conceito de angústia de Kierkegaard se insere em um contexto de retomada crítica hegeliana. A crítica ao sistema hegeliano se baseia nos princípios expostos na Ciência da Lógica.
Na filosofia Kierkegaardianos o homem enquanto indivíduo é espírito, é a síntese de finito e infinito, de temporal e eterno, de liberdade e necessidade. A fé, representa uma tensão intrínseca da própria condição humana, assume papel relevante nessa filosofia-teologia. Para Kierkegaard, todo homem é angustiado, mesmo o mais feliz de todos. A angústia é característica humana. Quanto maior é a sua angústia, mais humanizado se torna o homem.
A filosofia de kierkegaard trabalha angústia, a partir de uma descrição fenomenológica da existência humana. A vida mergulhada na plenitude do momento, voltada para capturar o gozo da existência, uma situação na qual você não aspira a nada, não deseja nada. Este tipo de existência, marcada pela exterioridade, a mudança e o imediatismo, leva a experiência do desespero. Para fugir da prisão de seus desejos, o homem precisa dar um salto, que o leva ao estágio ético.
O mundo do homem ético é dominado por uma ordem universal, que o faz sentir perdido numa multidão, anônima, sem autonomia e percebendo-se condenado a solidão consigo mesmo. Vindo reconhecer sua condição de pecador e a necessidade de arrependimento, não mais podendo se referenciar pelas leis universais, se vê em desespero e angústia.
Conclui-se, que para kierkegaard, a angústia tem sua origem na percepção do limite, que marca a vida humana. O homem seria uma síntese de infinito e finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, em suma uma síntese, vindo o eu a não existir ainda.
Podemos concluir através dessas reflexões, que devemos aceitar a angústia como componente inevitável do funcionamento psíquico. A angústia se põe, neste caso, como necessidade para o homem moderno o estabelecimento de uma vida no limite como ponto de partida para criação e não castração.


MURTA, Cláudia. PESSOA, Fernando. Angústia em filosofia e psicanálise. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Secretaria de Ensino a Distância, 2017.
FREUD, Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

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